Fort-da
Uma vinheta clínica fictícia e reflexões sobre maternidade.
Ela chega, deita com a barriga pra cima pois assim é mais fácil pro bebê mexer. Diz que naquele dia ele ainda não mexeu e que isso está causando uma crise de ansiedade: passou o dia com coração acelerado, angustiada, "ruim demais". Concordo, também estou grávida e ela sabe, e pergunto se algo mexeu com ela essa semana. “Ah, mais do mesmo né, meu pai sumiu de novo". E me conta que ele resolveu parar de responder as mensagens de Whatsapp quando ela contou pra ele que o filho carregaria o sobrenome da família da sua mãe, a avó do menino na barriga. O pai ausente se queixou da ausência de seu nome no filho da filha que ele mal conhece.
Ela continua, diz que dessa vez o sumiço dele doeu diferente, doeu mais. Que das poucas memórias que tem dele na infância, muitas são de que era “ruim demais” ficar esperando ele aparecer nas visitas combinadas, que antes da visita eles se falavam pelo telefone pra combinar, ele dizia que estava com saudade e contava dos passeios que fariam e dos presentes que levaria, mas quase sempre não aparecia. E ela achava que o quase sempre era pior do que se ele nunca aparecesse, porque deixava vivo um resto de esperança de que dessa vez ia ser diferente, ia dar certo, ela veria o pai e não precisaria se sentir esquecida. Seus pais separaram quando ela tinha 1 ano de idade, e esse pai manteve uma presença ausente ao longo de toda a vida dela. Ele ia e vinha, sempre numa ligação telefônica ou na espera dela, as vezes, por anos.
Silêncio. Pergunto se era uma sensação parecida com a ansiedade de agora, uma ansiedade por algo que ela sabe que existe mas que nesse momento não consegue sentir a presença. Ela chora dizendo sim. “Ausência nem sempre é abandono, tenho 40 anos e ainda sinto igual a criança esperando o pai aparecer?”, ela diz. Mais silêncio. Digo a ela que acho que o bebê vai chutar logo mais. Rimos. “E não é que o coração acalmou?, ela se despede.
Terminei de ler Coisas Importantes Também Serão Esquecidas, da Martha Nowill, um diário de sua gestação de gêmeos em plena pandemia e do seu puerpério até os filhos completarem 1 ano de vida. Em 2023, durante o mesmo puerpério da atriz e escritora, assisti com uma amiga a peça em que ela interpreta e se mistura com Pagu (se tiver oportunidade, assista). Estávamos ali, eu e e essa amiga, num momento para ambas de pensar a decisão pela maternidade e bem, a crueza e a paixão de Martha certamente contribuíram pro que hoje tem sido minha declaração quando me perguntam sobre estar grávida: “Uma pira, uma mistura de deusa criadora do universo com vítima do filme Alien".
Esse trecho do livro me pegou demais, isso é assunto pro divã da minha analista mas deixo aqui pra que quem sabe pegue alguém também.
Maria veio me visitar e leu um trecho da peça escrita por Fernanda Young que está ensaiando. A maternidade, diz o texto, é uma “felicidade que vem com uma amputação”. “Uma mulher, para ser boa mãe, precisa, fortemente, proteger o seu indivíduo.”
As frases ecoam durante o dia. A vida inteira tive a sensação de estar numa batalha armada para proteger meu “indivíduo”. Protegi meu indivíduo do bullying nível 3 que sofri na pré-adolescência, das expectativas da minha família, da falta que eu sentia do meu pai médico e tão ocupado. Protegi meu indivíduo da minha pequena farda de escoteira mirim, do divórcio litigioso dos meus pais, do excesso de liberdade que me concederam, das relações abusivas, do padrão estético tipo rolo compressor que insistiram em passar sobre meu corpo fora de padrão, protegi meu indivíduo do desencanto.
E assim, de um segundo para o outro, me sinto forte. Eu sou Ph.D em proteger meu indivíduo, sei disso com a mesma clareza que sei que a Terra é redonda. Na verdade, tudo o que eu preciso talvez seja parar de proteger meu indivíduo.
A vinheta clínica do início deste texto é ficcional, a paciente é uma personagem e a analista é inspirada na minha vivência clínica, essa sim autoral e, como tudo que sai da gente, de certa forma biográfica.
A foto é da Lisa Sorgini.

Sou mãe de um menino de oito anos, as vezes começo um texto sobre maternidade achando que não vou encontrar nada novo mas sempre encontro. Viver é gigante mesmo.
Amei o texto e amei as frases e indicações. Nada resume melhor a gravidez e a maternidade do que essa mistura de deusa poderosa, construtora de seres humanos com a vítima amputada pela entrega. Me tocou. Gratidão!